Cotidiano da mulher negra na Bahia no século XIX

Elivane Passos Oliveira

Metodologia:

O trabalho possui como abordagem histórica a história social, que por sua vez, estuda os modos e mecanismos de organização social, fazendo parte da estrutura social que identifica os indivíduos em várias situações da vida. As estruturas são aplicáveis para as pessoas em como a sociedade é um sistema organizado por padrões característicos de relacionamentos. A história social estuda a Instituições, que são organizações ou mecanismos sociais que controlam o funcionamento da sociedade.  As relações sociais (a participação da mulher dentro do grupo e as relações entre os diversos grupos sociais), os processos de transformação, as diferenças e desigualdade, as formas de sociabilidade e o sistema de exclusão, fazem parte do estudo da história social.

Resumo:

Este tema discute a mulher negra, escrava e liberta, em Salvador, Bahia, durante o século XIX. Dentre os diversos aspectos da presença feminina negra na sociedade baiana. A idéia neste trabalho é partir do estudo da negra escrava, no âmbito doméstico, caminhando para o espaço da rua, onde podiam existir as possibilidades de vida mais autônoma.

Palavras-chave:

mulher 1; negra 2; liberta 3; livre 4; escrava 5; ganhadeira 6; domestica 7

Introdução:

Os documentos onde existe referencia a mulher, em especial a mulher negra, são produtos da mentalidade de homens numa sociedade patriarcal e escravista. A mulher é descrita a partir da idealização do papel feminino no século XIX e, particularmente a negra, de acordo com a categoria social que condiciona seu lugar na sociedade.

A economia baiana depois de viver um período de relativa prosperidade no final do século XVIII e primeira década do século XIX, declinou a partir de 1821 em razão de vários fatores, sendo os mais importantes a Guerra pela Independência na Bahia, os conflitos que seguiram, e mudanças na conjuntura internacional, que marcariam o final da trajetória ascendente, desorganizando a vida econômica.

1.  Mulher na sociedade:

Na sociedade patriarcal, muitas vezes além de serem relegadas a um plano secundário as mulheres, durante anos, aprenderam a não transpor as fronteiras do lar, a se manterem distantes da questão do saber (dada à estreita ligação entre conhecimento e poder) e do direito de exercerem trabalho remunerado.

Ao longo da História, durante séculos, vimos o papel da mulher ficar marcado e restrito essencialmente às funções de mãe, esposa e dona de casa. Ao homem estava destinado o exercício de uma profissão, de um trabalho remunerado fora do núcleo familiar.

A idéia que se tem é que a mulher sempre foi submissa. Mas mesmo naquela época elas construíram estratégias para se rebelar. Muitas das mulheres tornaram-se chefes de família após o divórcio, que era dado pela igreja, e não pela Justiça.Mulheres que administravam casas comercias, eram donas de engenho, emprestavam dinheiro e sabiam dobrar o patrimônio que herdavam dos pais ou recebiam dos maridos depois da separação.

2.  A mulher negra:

Dentro do contexto crônico do problema social, econômico e político se movimentava a mulher negra baiana, fosse escrava, livre ou liberta. Participava de quase todos os setores do mundo do trabalho, criando mecanismo para sobreviverem às diversidades. Os problemas refletiam-se no modo de viver e ganhar a vida dentro e fora da escravidão. Para muitas significava lutar conta a miséria e a fome, além de procurar contornar os limites impostos pela escravidão nos papéis sociais que desempenhavam. No setor urbano estavam inseridos, principalmente, nas atividades domésticas e no ganho, vivendo diariamente nas ruas, universos diferentes cujos conteúdos e limites.

2.1. A mulher escrava:
2.1.1.      Escrava domestica

O trabalho da negra foi utilizado em diversos setores da economia escrava, mas principalmente em atividade domésticas. A maioria das domésticas eram escravas, embora houvesse negras livres e libertas que se “alugavam”, conforme terminologia da época, para trabalhar em algumas dessas atividades.

É evidente certo privilégio por parte dos escravos urbanos em conquistar a alforria, e em particular das mulheres escravas. Com efeito, os maiores beneficiados foram os escravos urbanos, que tinham mais oportunidades de poupar dinheiro e estavam mais próximos dos mecanismos jurídicos para forçarem o cumprimento da lei.

2.1.2.      Escravas ganhadeiras

As relações escravistas nas ruas de Salvador do século XIX se caracterizavam pelo sistema de ganho. No ganho de rua, principalmente através do pequeno comércio, a mulher negra ocupou lugar destacado no mercado de trabalho urbano. Encontramos tanto mulheres escravas colocadas no ganho por seus proprietários, como mulheres negras livres e libertas que lutavam para garantir o seu sustento e de seus filhos. As escravas ganhadeiras, como se chamavam, eram obrigadas a dar a seus senhores uma quantia previamente estabelecida, a depender de um contrato informal acertado entre as partes. O que excedesse o valor combinado era apropriado pela escrava, que podia acumular para a compra de sua liberdade ou gastar no seu dia-a-dia. Geralmente os senhores respeitavam as regras do jogo, embora a legislação fosse omissa sobre este assunto.

As escravas ganhadeiras podiam residir ou não com os senhores, dependendo da vontade destes e um pouco da delas também. Caso fosse permitida a morada fora da casa do senhor, a escrava responsabilizava-se por sua alimentação e moradia, mas os senhores recebiam sem maiores preocupações a quantia estipulada, em dias pré – fixados.

2.2. A mulher livre e liberta:

As mulheres negras estavam concentradas, sobretudo nas paróquias do Passo, Vitoria e Conceição da Praia, onde serviam como domésticas. Mas sua presença também era significativa nas freguesias do Pila, Mares e Penha. A freguesia de Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora da Conceição da Praia, ambos na Cidade Baixa, eram consideradas árias essencialmente comerciais. Ali estava o porto de Salvador, recebendo e comercializando produtos de fora da província e do Recôncavo baiano. Nesse local encontravam-se dois grandes mercados, sendo o principal o de Santa Barbara, onde trabalhavam negras vendendo diversos produtos, mas elas também comercializavam nas ruas e no cais frutas, verduras e, principalmente, comida pronta.

As mulheres libertas experimentavam uma situação no ganho diferente das escravas, pois no seu trabalho não interferiam os senhores e os produtos da venda lhes pertenciam totalmente. Apesar dessa diferença, desempenhavam a mesma função social que as escravas, circulando a vender produtos alimentícios e outros.

Considerações finais:

Busquei falar sobre a mulher negra da Bahia no século XIX, em diferentes situações, o que as negras tiveram que fazer para sobreviver, dentro de um novo contexto a qual se encontrava a sociedade baiana.

Referências:

REIS, J. J. . Liberdade por um Fio: História dos Quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SOARES, C. C. M. . A Negra na Rua, outros conflitos. Coleção Baiana Neim Ufba, UFBA, v. 6, p. 35-49, 2001.

SOARES, C. C. M. . As Ganhadeiras: Mulher e Resistência Negra em Salvador no Século XIX. Revista Afro-Ásia, Salvador, v. 17, p. 57-71, 1996.

SOARES, C. C. M. . Mulher Negra na Bahia no Século XIX. Salvador: EDUNEB, 2006. 134 p.

Provocações:

1-      Sobrevivemos numa sociedade patriarcal e como conseqüência é o homem que domina, manipula, transforma, põe e dispõe, restando apenas à mulher o papel de se submeter e de se resignar.

2-      Era a mulher que, sustentou a família enquanto o homem se ausentava temporária ou definitivamente. Mas a fala disseminada ao longo dos séculos foi de que a mulher era frágil, sem condições de pensar, criar ou sobreviver sem o homem, servindo apenas como um grande útero.

3-      A negra carregando uma criança branca!!!!!

Retrato de ama negra com criança branca presa às costas. Fotógrafo não identificado. Bahia, c. 1870.

Acervo Instituto Moreira Salles

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10 Comentários

  1. iris said,

    5 de junho de 2010 às 22:18

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

    • ucsalvane23 said,

      6 de junho de 2010 às 21:42

      n sei se os aspectos metodológicos estão coretos.

  2. jef04 said,

    19 de junho de 2010 às 22:34

    Oi Elivane estava fazendo uma leitura do seu texto es achei muito legal,verfique o meu,há questionamentos sobre as juntas de alforrias.
    Jeferson

    Boa Noite!

  3. cosma2 said,

    21 de junho de 2010 às 19:45

    Elivane, seu tema é muito bo ele tem uma preocupação em mostra o cotidiano das mulhres negras,quando voce cita qiue ela ocupou lugar no mercado urbano,mostra que negra de ganho passou a ter um pé a mais para sua libertação e sustentos da quelas que ja eram livre , vem anunciando uma resitência e uma adaptaçãoa mudança de vida na epoca pequena porém de grande importancia.

  4. 22 de junho de 2010 às 2:38

    Bastante interessante seu tema , pois busca mostrar como as mulheres vivam no sec XIX e os objetivos que vao se formando , como a colega cosma cita , é ”uma pequena mudança , porem de grande importancia”.

  5. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 21:03

    Seu texo está muito bom. Parabéns. Contudo, o parecer final é de Alfredo.

  6. barboso1981 said,

    25 de junho de 2010 às 5:39

    Muito bom em se tratando da imagem da mulher negra na sociedade brasileira, vista como objeto sexual, resquício do colonizador. O seu artigo nos remete a refletir na potencialidade que as mulheres escravizadas ou forras tiveram para dinamizar o seu dia-a-dia e traduzi-lo em atribuições de valorização pessoal e defesa contra os assédios de sua época, que foram refletidos nos dias atuais, desculpe o anacronismo. Seu artigo pode ser colocado em discussões em sala de aula por nós que estamos ingressando na profissão de professores e pelos que estam no oficio, no intuito de levantar a auto-estima das meninas que iram ser grandes mulheres e exigir o respeito dos meninos a elas, dignificando assim, o valor máximo de uma sociedade que é o respeito sem distinção de cor, raça, crença, gênero ou opção sexual.

    Henrique Barbosa

  7. joanan13 said,

    26 de junho de 2010 às 12:37

    ola,
    gostei muito do seu trabalho, voce conseguiu abordar metodologicamente o tema. a historia do negro na bahia é fantastica, pricinpalmente a da mulher, que com toda dificuldade conseguia auto-sustentasse e passar o seus ensinamentos a outrem.
    essa foto foi bem escolhida, ela expressa todo um contexto de atuacao da mulher liberta na sociedade baiana no seculo XIX.

    JoaNan

  8. 27 de junho de 2010 às 0:21

    Olá Elivane,
    achei fantastica essa imagem!!! Vou “roubar”, rsrsrsrs… Mas vamos ao que interessa.

    O que dizer de uma imagem que fala por si só !!!
    É algo tão atual, que tenho a impressão de estar vendo minha bisa, avó, mãe, tia, irmã, ou seja, nós todas. Mulheres negras categorizadas socialmente como inferiores numa sociedade machista, envoltas numa realidade de pobreza e descaso social, tendo que complementar seu orçamento familiar quase que inexistente para o periodo, e que de fato não mudou nos dias atuais.
    Mulheres negras e crioulas, ventres fertéis, simbolo de força e resistencia que precisaram sair de seus casebres/senzalas, deixando sedentas e famintas as bocas pretas de seus meninos pretos, para cuidar, amamentar e cuidar dos labios rasados de uma elite branca, abastada e podre em suas estruturas.
    Mulheres que estão hoje no sub emprego, nas cozinhas modeladas dessa mesma elite, deixando aos cuidados da sorte seus muitos filhos pretos, rezando para que eles não sejam pegos pelo “bicho da farda preta”…

    • ucsalvane23 said,

      27 de junho de 2010 às 17:34

      Concordo com vc, essa é a sena q vejo todos os dias em nossa sociedade atual, é a prova que o passado reflete no presente.
      elivane


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