Irmandades da Bahia: Boa Morte

   Trabalho de Bahia II Ronaldo Coelho Conçeição  

   

  Metodologia

 Neste trabalho uso uma abordagem de História Social destacando a Irmandade da Boa Morte. A História Social contempla os espaços econômicos, sociais, políticos e culturais dentro das narrativas históricas  e suas aplicações que a envolve. Tentarei esclarecer a importância desta confraria religiosa que com elementos do catolicismo juntamente com a religião africana, o candomblé, conseguiu manifestar com muita luta e resistência a sua fé e devoção a Nossa Senhora. Ao longo do trabalho destacarei algumas estruturas muito importantes para a compreensão do que quero esclarecer. 

 Resumo: 

 A Irmandade da Boa Morte é uma entidade religiosa católica, mas obedecendo ao sincretismo religioso baiano. É realmente uma ligação do sincretismo religioso baiano que já adotado pela Igreja Católica já há alguns anos e é aceitam na maior naturalidade.  Essa religiosidade, além de ser uma motivação à atividade religiosa e à devoção, nos parece um ajustamento entre as ações do ser humano a uma ordem cósmica imaginada e projetada no plano da experiência  humana. Os universais culturais refletem conceitos verificáveis na larga maioria das culturas humanas, funcionando como pontos que ligam identidades, construindo uma densa teia de comportamentos e valores humanos que concorrem para a construção de uma idéia de humanidade global. Uma análise sobre as culturas tradicionais é facilmente constatável uma série de princípios culturais e religiosos que alinham estas culturas e civilizações num eixo de códigos de interpretação partilhados. Esses códigos revestem-se de conteúdo nas cosmologias, nas cosmogonias, nos papéis de gênero, nos ritos iniciáticos e nas concessões sobre o divino. 

 Especialmente no Brasil, não é possível ignorar o passado que construiu nossa história e está presente em nossas vivências, mas que nem sempre perpassa os manuais escolares de modo que possa provocar reflexão e interesse por investigação. Venho então abordar sobre a Irmandade da Boa Morte. Historiadores como Pierre Verger nos trazem que a atuação das primeiras Irmãs da Boa Morte teve significado político, social e, significativamente, religioso. A Irmandade da Boa Morte é uma confraria católica de mulheres negras e mestiças que descendem e representam a ancestralidade dos povos africanos escravizados, e libertos, no Recôncavo da Bahia. A polêmica sobre o valor e o significado do sincretismo normalmente se apóia na idéia dominadora de uma religião sobre a outra, como é o caso do cristianismo europeu sobre negro africano, cultural e espiritualmente 

  Palavra Chave: 

 Cultura, Fé , Tradição, Memória afro-brasileira, Religiosidade 

Introdução: 

 A confraria em questão foi fundada em 1820 aproxiamdamente com intúito de angariar fundos para  alforriar negros, realizar funerais dígnos para os seus irmãos que vinha a falecer, além disso, também tinham o objetivo de dar-lhe fuga, encaminhando-os para o Quilombo do Malaquias, em Terra Vermelha, zona rural da cidade de Cachoeira, mas seu objetivo principal é a devoção à Nossa Senhora. Exemplo de resistência e determinação, as irmãs tinham que serem ja iniciadas no candomblé e ter em torrno de 40 anos , isso pertmanece até os dias atuais. Pensar a cultura negra no Brasil faz-se relevante por considerar que o lugar que ocupamos no espaço e o período temporal em que vivemos condicionam a nossa visão de mundo. A irmandade de nossa Senhora da Boa Morte nasceu nas senzalas, locais que abrigavam escravos negros nos engenhos de cana-de-açúcar, ha cerca de 190 anos. A cultura de matriz africana desenvolveu-se na Bahia paralelamente á do europeu. A polêmica sobre o valor e o significado do sincretismo normalmente se apóia na idéia dominadora de uma religião sobre a outra, como é o caso do cristianismo europeu sobre negro africano, cultural e espiritualmente.  

 É interessante verificar a universalização do sagrado feminino, uma constante nas culturas tradicionais, ou de Antigo Conhecimento, que reflete bem a lógica do papel social das mulheres e o mistério da vida e fertilidade.  O feminino é expressado no útero da existência, no mistério do nascimento, e na maternalidade da terra. No nosso entender, esse arquétipo se aplica ao Feminino da psique humana, e assim sendo, é presente mesmo em tradições predominantemente masculinas, como é o caso do cristianismo. Através de Nossa Senhora, e das suas muitas faces, percebemos também o arquétipo da Grande Mãe como protetora, defensora, sustentadora e mantenedora da natureza e da humanidade. Nossa Senhora da Boa Morte é uma mãe. É misericordiosa. Ela é poderosa. Ela acode suas filhas na hora da sua necessidade.  

Irmandades Negras 

Na impossibilidade de manifestar publicamente suas religiões, os africanos buscavam demonstrar sua fé através de vários expedientes. Enquanto uns optavam por pratica-la às escondidas e de forma camuflada, a exemploi do que se chamava de calundu, outros elegeram o culto a santos negros da Igreja Catòlica 

Foi nesse contexto que se inseriu o culto e devoção a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a de São benedito, Santa Efigênia, São Elesbão, Santo Antonio de Caragirona, Nossa Senhora da Boa Morte, Nosso Senhor dos Marítimos, Bom Jesus da Paciência, Senhor da Cruz e Senhor da Redenção. 

Esses cultos acabaram por se contituir em associações, denominadas de irmandades. Segundo o historiador João Reis, na sua concepção, elas representavam um espaço de relativa autonomia dos africanos, no qual seus membros contituíam identidades sociais significativas através de festas, assembléias, eleições, funerais, missas e assistência mútua, no novo território cuja realidade e perspectiva de futuro eram incertas. Tratava-se de uma espécie de família ritual, em que africanos, transplantados de suas terras para o Brasil, viviam e morriam solidariamente. 

Idealizados pelos brancos, sobretudo pelos jesuítas, como uma estratégia de evangelização, e consequentemente de domesticação do africano, essas associações, em um primeiro momento, pretendiam apenas introduzir elementos dos cultos dos africanos na religião dos senhores. Com o tempo, elas passaram a se constituir em instrumentos de identidade e solidariedade coletivas. 

Esse tipo de confraria religiosa já existiam em Portugal desde o sécul XIII e se dividiam em irmandades e ordens terceiras. Estas últimas se diferenciavam das primeiras por se associarem às ordens religiosas conventuais, como os franciscanos, dominicanos, carmelitas. No Brasil, elas começaram formar-se a partir de 1586, por iniciativa dos jesuítas, que fundaram várias irmandades. 

Com a abolição da escravidão, as irmãs aproximaram-se da Igreja católica, fundando a entidade que funciona atualmente em um conjunto de quatro sobrados do século XVIII, restaurado pelo Instututo do Patrimônio Artístico e Cultural-IPAC. 

  O historiador cachoeirano Luiz Cláudio Dias Nascimento afirma que os atos litúrgicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Posteriormente as irmãs transferiram-se para a Igreja de Santa Bárbara, da Santa Casa da Misericórdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Glória e da Boa Morte. Mudaram-se para a bela Igreja do Amparo demolida em 1946, hoje com sede em Cachoeira, no recôncavo baiano. 

 Conclusão

As origens da Irmandade no contexto histórico colonial e a relação mítica afro-cristã, no nosso entender, servem de suporte ao entendimento da identidade, do sincretismo e da musicalidade predominantes em todo contexto ritual da festa da Boa Morte e Glória. A reflexão que apresentamos é parte de um trabalho etnomusicológico bem mais amplo já desenvolvido. O objetivo deste trabalho é registrar apenas a importância da Irmandade da Boa Morte para o entendimento da religiosidade brasileira.  Após tantos anos, a Irmandade em questão continua sua contribuição para manter em evidência essa rica memória afro-brasileira apesar das dificuldades enfrentada pelas irmãs. Mais nada conseguiu nem consegue abalar as estruturas dessas africanas e afrodescendentes que são de fundamental importância para a compreensão de uma sociedade que tinha em sua base a escravidão no século XIX. 

  Provocação:   No período colonial existiam outras irmandades ligadas à Igreja Católica, em sua maioria, formadas por homens, não era comum uma entidade formada unicamente por mulheres, além do mais negras,escravas, libertas. Podemos considerar a Irmandade da Boa Morte também um dos primeiros movimentos feministas do século XIX ? 

Referencias bibliográficas: 

 REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. 2º ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. 

 REIS, João José. Identidade e diversidade étnicas nas irmandades negras no tempo da escravidão 

 LODY, Raul Atlas Afro-brasileiro: Cultura Popular.Salvador: Edições Maianga,2006. 

 BRAGA, Julio. Ancestralidade Afro-brasileira: O culto de babá egum. 2ª edição Salvador: EDUFBA/Ianamá, 1995. 

 VERGER, Pierre Fatumbi. A contribuição especial das mulheres ao candomblé do Brasil:  São Paulo: Corrupio, 1992. 

  http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.terra.com.br/revistaplanet 

  http://www.terra.com.br/revistaplaneta/images/395/01.jpg

13 Comentários

  1. eudesamigo said,

    5 de junho de 2010 às 22:16

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

    • roneco2009 said,

      15 de junho de 2010 às 2:01

      cara eu postei no dia 12/06 , hoje quando fui verificar estava vazio, ta complicado

    • roneco2009 said,

      21 de junho de 2010 às 2:00

      Eudes, é preciso por as referências, esse trabalho tem que ser em forma de artigo,com as normas exigidas ? Tenho estas dúvidas

  2. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 20:54

    Veja as orientações dadas pelo professor Alfredo acerca da organização do texto. Além disso, é necessário garantir a interatividade em relação aos trabelhos de seus colegas. Sugiro que você veja as normas da ABNT em relação aos trabalhos científicos.Aperfeiçoe desenvolvimento e conclusão. Lhe indico os autores Sebastião Heber, Renato da Silveira que discutem Irmandade da Boa Morte.

    • roneco2009 said,

      28 de junho de 2010 às 1:55

      Eudes, alfredo não disse que o trabalho tem que ser em forma de artigo, por isso fiz assim.

  3. roneco2009 said,

    28 de junho de 2010 às 4:56

    Pronto Eudes, está aí minha revisão , tentei fazer o que Alfredo pediu,espero que esteja satisfatório,veja aí…

  4. 28 de junho de 2010 às 12:21

    Muito bom Ronaldo, gostei muito, pra ser sincero, já ouvi falar na Irmandade da Boa Morte mas não conhecia a fundo. Foi muito proveitoso pra mim.

    Abraço,

    Danilo Santana.

  5. barboso1981 said,

    28 de junho de 2010 às 13:44

    Ronaldo, admiro muito a sua capacidade de criação e seu esforço e determinação.
    A irmandade da boa morte foi outro exemplo de resistência negra contra os opressores. Você colocou de maneira objetiva o valor dessa irmandade abordando os panoramas sociais da época, como por exemplo, dar fuga aos escravos, encaminhando-os para o Quilombo do Malaquias, em Terra Vermelha, zona rural da cidade de cachoeira. Não podemos esquecer, dos métodos dessas mulheres para adquirir condições para compra de alforrias e, também temos que destacar a crença tanto a Nossa Senhora mãe do Jesus Morto quando em Nanã deusa e senhora daqueles que alcançaram o outro plano, o “ESPIRITUAL” para o Candomblé.
    Você destacou o valor social institucionalizando essa confraria, enfatizou as contribuições sociais dessa irmandade e acima de tudo, objetivou o seu trabalho com uma linguagem simples e dinâmica.

    Meus Parabéns.

    Henrique Barbosa.

  6. joanan13 said,

    28 de junho de 2010 às 15:42

    Olá, camarada!
    O seu trabalho esta bem legal.Gostaria de discutir a provocacao que vc nos fez.
    A mulher era muito excluida na sociedade baiana do seculo XIX, principalmente uma mulher negra. Organizá-se em irmandade, concebia-lhes a conservacao do saber e uma prática sicrética de tudo que cria simbolicamente. Essas mulheres encontravam dificuldades para expressar sua fé e também para sobreviver naqueçla socidade machista. Na irmandade era encontrado o apoio feminino e étnico de uma cultura milenar africano, que perpassou-se aos nossos dias.
    parabens pelo trabalho.
    valeu,

    Joanan

  7. 28 de junho de 2010 às 17:13

    Parabéns colega. Vejo que você trabalha muito bem algumas categorias exigida pelo professor, percebo também que a Irmandade além de ser uma confrária religiosa é uma continuidade de uma tradição cultural e religiosa de nosso povo negro que tanto é estigmatizada. É bonito perceber como você trabalha esse tema com bastante interesse e que buscou fazer pesquisas amplas e escreveu de forma que só um historiador poderia.
    Por, Adenilton Lopes.

  8. cosma2 said,

    28 de junho de 2010 às 17:57

    Rony,Seu trabalho está muito bom, eu fico muito feliz pela forma que você vem condunzindo procurando se dedicar dentro do contexto de vida que tem, eu queria deixa registrado isso . vamos lá ao tema:Quando voce se retrata ao sicretismo religioso muito bom pos faz ummrecorte e mostra como a treligião na epoca necessitou desse artificio para se manter.Falando da importancia em angariar recursos para alforria, muito bom uma forma de resistencia dentro desse contexto de escravidão,e percebe-se o papel da mulher negra que teve a sabedoria, em usar a irmande.Por tal motivo desnvolveu um trabalho bom, muito axé. felicidade sempre força e luz.

  9. 29 de junho de 2010 às 9:04

    Boa contrução e narrativa Rony… Um assunto digno de ser bem estudo traço de nossa cultura e resistencia frente a uma sociedade que buscava sua inferiorização.
    Provocação:
    A intenção dela era defender os ideais feministas????
    ou defender suas crenças religiosas???
    creio que a resposta da sua pergunta verte sobre estes questionamentos

  10. 30 de junho de 2010 às 15:36

    Olá Rony,
    a sua temática constitui-se um dos elementos chaves à minha construção, uma vez que as irmandades negras – de forma geral – desempenharam um papel importante na construção da identidade étnica negra.

    “As irmandades parecem ter desempenhado um papel importante na formação de um a “consciência negra”, embora consciência dividida, que desabrochou no Brasil com o fim do regime colonial. É incontestável o valor que tiveram como instrumentos de resistências. Permitiram a construção ou a reformulação de identidades que funcionaram como um anteparo a desagregação de coletividades submetidas a imensas pressões (REIS,1997,29)”.

    Posto isso fica claro que em se tratando de uma irmandade negra feminina, evidencia-se a luta por atribuição e resgate de sua condição social.
    Acredito que tais mulheres negras lutavam e buscavam reconhecimento enquanto gênero e componente social e produtivo da sociedade, bem como muitas mulheres negras o fazem hoje. Pois ao longo da História da humanidade, machista e conservadora, os movimentos, as representações, as instituições, a força e poder foram moldados por Homens, e os “homens negros” não foram e nem seriam diferentes…


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