Corpo e Saúde no Candomblé – 1950- 1960.

Agenor Nunes de Santana[*]

Metodologia

A História Social aparece vinculada as abordagens culturalistas com ênfase nos costumes e tradições: por tanto a História Social nessa perspectiva define como objeto do domínio privado, se destacando com uma relação à oposição entre individual e coletivo.

O Texto abordará de forma metodológica na perspectiva da História Social, o corpo e a saúde no candomblé. O curandeirismo como irei dizer mais abaixo, era uma prática de negros que sofriam segregações e que em meados do Séc. XX com uma tensão social exaltava a descriminação a essa sociedade em manter a sua cultura e tradição. Como essas pessoas se processavam diante dessas objeções de quem estava no poder? Essa tensão social surge em um clima de desconfiança quanto à importância da atuação social desse grupo na construção de uma sociedade.

Resumo

Esse trabalho destaca a influência do espaço territorial dos terreiros de candomblé nos uso de suas práticas litúrgicas e culturais na perspectiva de cura do corpo e alma do ser humano. A natureza como bem maior do homem visto também que o homem faz parte dessa natureza e que ao destruí-la estará fecundando o seu fim.

Analisamos também a tradição e a necessidade dos conchavos políticos para a sobrevivência desses espaços, da religiosidade, da cultura e da própria fé.

Palavras-Chave: Cura, Cultura, Tradição, Religião E Religiosidade.

Introdução

O tema será abordado com a finalidade de procurar entender a influência cultural e religiosa da cura do corpo através da espiritualidade. Perpetuado de geração em geração sob forma oral da religiosidade de matriz africana. Cura, cultura e tradição serão as categorias que irei abordar para que se possa chegar a um entendimento de como o candomblé lidava com as doenças do corpo. Os avanços que as religiões de matriz africana tiveram a partir dos “conchavos” com as classes dominantes possibilitaram a expansão do conhecimento da preservação da natureza vendo o homem como um dos principais componente desse meio. O cuidado da saúde humana através de suas praticas litúrgicas fizeram do candomblé uma referência no curandeirismo. Essas informações foram baseadas em livros, artigos citados na referência e na oralidade como fonte historiográfica.

As religiões de matriz africana não têm textos escritos em sua maior parte têm sido transmitidas oralmente. Por esse motivo entre algumas pessoas tem-se a dificuldade de compreendê-las. Boa parte do conhecimento que temos sobre essas religiões é transmitida oralmente por seus povos (por meio do ato de contar histórias sobre: suas filosofias, espiritualidade e mitologia) ou relatada por observadores europeus colonizadores e missionários.

  • Cura

A prática da cura e a forma como os negros utilizavam sua sabedoria de manipulação de ervas, raízes e sementes não era bem vista pela sociedade dominante. Muitas pessoas deixavam de freqüentar consultórios médicos para se aconselharem e se medicarem com lideres do candomblé. Essas atitudes sofriam represálias da sociedade (médicos) que perdia espaço para esses lideres espirituais tido como fetichistas e/ou charlatões

A religião africana, em sua essência, não faz maldades. Essas religiões utilizam forças da natureza (energias) e a natureza que aquece ao mesmo tempo pode queimar, a natureza que sacia a sede ao mesmo tempo pode afogar e asfixiar e essa mesma natureza que é usada como curandeirismo (chá, utilização de ervas, raízes e sementes) pode intoxicar se usada de maneira errada. Quem faz o mau aos outros são pessoas que estão dentro de qualquer religião e usam os seus “poderes” com interesses maléficos. Não diferindo muito de um médico ou enfermeiro que trabalham em prol da saúde, mas negligenciam o seu paciente.

Através do equilíbrio da natureza tinha-se a busca estrutural seja esta da saúde do corpo e mental, da econômica, do social e da família. O equilíbrio ideal com a natureza é a própria garantia de sobrevivência juntamente com os padrões de comportamento de cada um, pensando sempre mais no coletivo do que de uma forma individual.

  • Cultura

O conceito de cultura é amplo, mas podemos absorver certos significados: Conjunto dos conhecimentos adquiridos; a instrução, o saber. Conjunto das estruturas sociais, religiosas etc., das manifestações intelectuais, artísticas etc., que caracteriza uma sociedade. E ainda, conjunto dos fatos ideológicos comuns a um grupo de pessoas consideradas fora das distinções de estrutura social. De forma bastante sintetizada, são as diferenças de comportamento do homem, em gestos, práticas e pensamentos em determinado ambiente. Baseado nesse conceito podemos assegurar que as práticas utilizadas pelos africanos e afro-descendentes no uso de suas ervas nas diversas formas de chás, banhos e beberagens tornou-se tão comum em nosso cotidiano que podemos considerar como herança cultural de nossos ancestrais.

O curandeirismo foi uma prática cultural que ocorria em espaços como, por exemplo, nos terreiros[1] de candomblé. O candomblé embora tenha sido reconstruído no Brasil no sec. XIX, muito se difundiu por todo o país tendo fortes e decisivas influências africana; a sua presença é mais marcante na Bahia, onde muitos negros escravizados desembarcaram no período da colonização. Candomblé[2], culto dos orixás, é uma das religiões afro-brasileiras praticadas principalmente no Brasil, pelo chamado e conhecido povo do santo.

A religião que tem por base o culto da Natureza foi reconstruído/adaptada para o culto no Brasil com o conhecimento dos sacerdotes africanos que foram escravizados e trazidos de diversos países da África para o Brasil, juntamente com seus Orixás / Nkisis / Voduns e Ancestrais, sua cultura, seu idioma e suas práticas cotidianas, no início da colonização brasileira.

  • Tradição

O candomblé é uma religião rica e que sofreu muitas represálias. Esta ultima foi retida/contida presença dos “padrinhos” – Ogãs; pessoas de grande poder social e político que levavam cargo de Ogã. Com o poder adquirido com os apadrinhamentos, estas casas acabam por receber esse título de tradicionais[3]. Deve-se lembrar que isso é fruto do poder que os padrinhos detinham sobre a sociedade. As casas que não tinham essa “sorte” ficavam sem o menor prestígio, casas da região do recôncavo podem ser usadas como exemplo para este caso. Existe certo marketing produzido pelos “padrinhos”. Era uma maneira de se livrar das perseguições ao candomblé.

O apadrinhamento se fazia necessário como uma forma de manter uma vida na sua “fé”, na presença de uma pessoa influente ou socialmente ou financeiramente falando. Essas pessoas eram as protetoras. O Ogã no Ilê Axé[4] como cargo de confiança dos sacerdotes e sacerdotisas, tinha condições sociais inferiores aos dos ditos “padrinhos”. Desde a época de represália. Julio Braga deixa explícita a importância que os padrinhos/Ogãs tiveram contra a intolerância religiosa e a resistência que enfrentavam para hoje estarmos falando sobre essa fé. Dá certa ênfase aos Ogãs, também conhecidos como “padrinhos”, pessoas geralmente com poderes políticos, com influência social, escolhidos estrategicamente por esse atributo e ou pré-requisitos, aqueles indivíduos que tem como intuito beneficiar as comunidades dos terreiros de candomblé, aquele que protegerá a comunidade dos terreiros contras represálias que a sociedade imponha através das autoridades (governo, policia e outras religiões que não aceitou a religiosidade trazida pelos negros escravizados).

As casas de candomblé, conhecidas como tradicionais e ou pioneiras tinham muito poder de sedução para atrair os Ogãs para que os mesmo viessem a proteger suas casas e comunidade contra represálias pertinentes da época. Contudo, existe passagem em estudos feitos e publicados em livros, que levam a crer que os rituais do candomblé também eram feitos com a mesma seriedade, não importava se eles tinham poder financeiro ou não, os atos de confirmação eram ocorridos normalmente como para qualquer outro indivíduo que se iniciasse no candomblé.

Conclusão

Trazer informações acerca da cultura afro-brasileira é sempre contributivo no fazer historiográfico. O texto em si é uma provocação. Durante muito tempo a história das populações negras foi excluída da história oficial. Desse modo, este trabalho busca não só apontar a prática da cura e espiritualidade ou mesmo a visão de mundo, das populações oriundas da África e que influenciaram profundamente a cultura do povo brasileiro, mas de acrescentar informações sobre a história dos africanos e seus descendentes, os afro-brasileiros.

Analisar as fontes e o método foi um tanto prodigioso, como estudante de História e sacerdote de religião de matriz africana (candomblé de nação Ketu) pude observar aspectos e práticas que um pesquisador sem esses atributos talvez não percebesse. A vivência em um terreiro de candomblé me proporciona uma legitimação nas falas, por já haver passado e vivenciado na prática os diversos métodos de cura através de ebós[5] e manuseio de ervas como farmacopéias.

Provocação

Em posse do conhecimento adquirido na leitura desse artigo, sendo o candomblé uma religião inteiramente voltada à natureza, conhecimento e uso de suas energias o dito mau estaria em seus elementos ou em sua utilização?


Notas

[*] – Agenor Nunes de Santana, estudante do sexto semestre do curso de História Bacharelado e Licenciatura da Universidade Católica do Salvador.

[1] Os templos de candomblé popularizaram-se como “terreiro” pelo fato de seus adeptos terem que no início cultuar sua fé escondidos por causas das represálias que os governos e a sociedade impunham. Os templos eram improvisados nos fundos das casas, literalmente no “terreiro” da casa, para que não houvesse vestígios de que alí existia o culto do candomblé. Ainda hoje a palavra “terreiro” é muito utilizada. As pessoas, os seguidores e adeptos ainda não têm essa concepção de que o candomblé e que o terreiro é um templo religioso. Têm as figura de templo só e somente de dicionário: “s.m. Edifício consagrado ao culto religioso; igreja. / Local em que se realizam as sessões da maçonaria. / Nome de uma ordem religiosa (v. TEMPLÁRIOS). / Fig. Lugar digno de respeito: seu lar é um templo.” Daí já parte uma falta de referência.

[2] Em Salvador existem cerca de 2.230 terreiros registrados na Federação Baiana de Cultos Afro-brasileiros e catalogado pelo CEAO da UFBa, ( Centro de Estudos Afro-Orientais – Universidade Federal da Bahia) Mapeamento dos Terreiros de Candomblé de Salvador.

[3] “nagocentrismo”: Referência aos terreiros na Bahia considerados tradicionais e de nação pura.

[4] Ilé Aşé do Ioruba, Casa de Força/Energia, se referindo ao espaço da territorialidade dos terreiros de candomblé.

[5] Ebó do Ioruba oferenda, presente em troca de algo.

Referência

SANTANA, Júlio Braga. A Cadeira de Ogã e outros ensaios. Editora Pallas, Rio de Janeiro, 1999, ISBN 85-347-0165-2

LÜHNING, A. E. . “Acabe com este Santo, Pedrito vem aí . . .” Mito e realidade da perseguição policial ao candomblé baiano entre 1920 – 1942. Revista USP, São Paulo, v. 28, p. 194-220, 1995.

6 Comentários

  1. eudesamigo said,

    5 de junho de 2010 às 22:18

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

  2. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 19:36

    Vejas as orientações dadas pelo professor Alfredo acercada organização do texto. Sugiro que você veja as normas da ABNTem relação aos trabalhos científicos. Trabalhe em cima de sua metodologia. Seu texto está sem desenvolvimento e conclusão. Os aspectos metodologicos da abordagem materialista não estão contemplados no desenvolvimento. É preciso articular a relaçao ente seu objeto e as tensões advindas das contradições dessa sociedade.

    • 27 de junho de 2010 às 19:52

      “Sugiro que você veja as normas da ABNTem relação aos trabalhos científicos”

      Como? Como devo aplicar as normas da ABNT aqui no WordPress? O texto está justificado, as fontes estão no rodapé (no final do texto). O tamanho da fonte do texto (o grosso) está em 12, os títulos estão em tamanho 18 (h2). Em fim, não sei o que realmente quer, por favor, me dê mais detalhes.

  3. barboso1981 said,

    25 de junho de 2010 às 5:18

    A religião é a ligação do homem com “aquele” ou “aquilo” que ele fundamenta como a sua fé. No caso do candomblé, além de ter esse principio de nos ligar aos deuses representantes da força da natureza, teve a tonalidade de resistência. Sendo assim, a prática dessa magnífica religião hoje, principalmente para nós, pertencente a ela, é motivo de orgulho.
    E quando você trás tópicos como cura, cultura, tradição, nos faz entendê-la, como grande sinônimo de resistência de uma raça sofrida, mas vitoriosa.

    Henrique Barbosa

  4. roneco2009 said,

    28 de junho de 2010 às 5:50

    Acreditam os adeptos do candomblé que a saúde e o bem estar só serão restabelecidos após o cumprimento de certas obrigações rituais que formalizem, e, a partir daí, equilibrem a relação entre o indivíduo e o seu orixá . isso ficou bem esclarecido após ler seu artigo.
    Parabéns, muito bom …..

    Comentário de Ronaldo Coelho

  5. 28 de junho de 2010 às 21:07

    É gratificante meu caro companheiro o trabalho produzido por ti, trazendo a tona a importância da religião como mecanismo de resistência da tradição e cultura popular! POSTADO POR GERSON SILVA.


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