Bahia: Processo de Independência


Por Tiago Ferreira

Processo de Independência da Bahia

Este texto traz a analise do processo de independência da Bahia. Tendo como método analítico o materialismo histórico. Procurando evidenciar os antagonismos das ordens que disputavam o poder e as tensões sociais presentes e cada vez mais forte, na capitania da Bahia, o  que tornava seu futuro incerto. Devido os seus diferentes projetos para a capitania pós-independencia. Percebendo as divergências existentes nos projetos, que em sua essência são contraditórios, onde cada um segue os interesses de suas ordens. O projeto senhorial é conservador e agrário e o projeto burguês é liberal e urbano. Duas propostas diferentes para o futuro da colônia, dois ‘futuros’ que disputaram a liderança na organização econômica da capitania.

Se não exergar direito dê dois cliques na imagem

A ordem Senhorial  instalada desde o inicio da colonização,  tinha a hegemonia e o poder de gerir a organização da capitania. Ela ditava a os rumos da produção, esta que era essencialmente agrário-exportadora. Esta ordem concentrava sua produção voltada para o mercado externo. Em grande escala, e grandes lotes de terras  tendo como mão-de-obra base a escravocrata, embora tivesse trabalho livre, assalariado e muitos libertos trabalhando neste ‘ramo’. A composição social desta ordem era bem diversa, a posição do Senhor era evidenciada pelo seu pode e prestigio diante de suas posses e da tradição. Em geral o livre, liberto, e escravo completavam a sociedade senhorial.

A ordem burguesa que estava crescendo e se fortificando tinha objetivos completamente diferenciados uma vez que a ordem senhorial era antagônica. Ambas não poderiam coexistir pacificamente em um mesmo espaço. Uma minaria a outra. A essência da ordem burguesa seria o comercio e o trabalho livre assalariado. A sociedade era composta pelo grande e pequeno comerciante, o  assalariado e os livres. O grande comerciante ditava a organização e as diretrizes da sociedade burguesa, ele era o ‘Senhor’ burguês desta ordem. Embora mais fraca por surgir em pouco tempo em um local de tradição senhorial a ordem burguesa tinha uma grande aliada à Inglaterra que ansiava e buscava por áreas que praticassem o livre comercio para introduzir fortemente a grande demanda de seus produtos gerados de sua grande revolução industrial.

Casa grande evidencia do poder e prestigio tradicional do Senhor, traço caracteristico da Ordem Senhorial

A colônia e posteriormente o Império brasileiro foi palco desta luta pelo poder, mas ele não estava suspenso no ar, ele estava envolto no mundo que respirava os avanços capitalistas, e seus desenvolvimentos conflitavam  com a estrutura do sistema colonial. Este que era senhorial, fechado, e protecionista. Diante disto palco dos embates ultrapassou os limites  Brasileiros e alcançou áreas internacionais.

Faculdade Baiana de Medicina. Desenvolvimento urbano como ‘proposta do projeto capitalista’

As bases da sociedade senhorial foram fortemente atacadas ainda na colônia com a inspiração na Revolução Francesa e a critica ao antigo regime e suas bases: o poder real, igreja forte e o protecionismo que tinha a mão forte do estado com grande empecilho para a burguesia ascendente. Revolução ‘popular’ de caráter burguês com varias conquistas, a mais importante  foi seu caráter liberal, “Derrubando a monarquia e abalando os altares”.  Os vultos desta revolução já fora sentido no Brasil anos antes de seu processo de independência com a conjuração carioca e mais forte com as conjurações mineira e baiana. A Baiana que teve um caráter popular muito forte, onde os participantes eram advindos das classes mais baixas tendo entre eles soldados, alfaiates e escravos. A conjuração baiana ou dos Alfaiates ( outro nome dado devido boa parte dos componentes terem desta profissão),  mostra-se bem aliado ao projeto burguês, tendo em vista que prega a republica, liberalismo, separação entre o estado e a igreja e fim da escravidão. Estes objetivos são bem presente na cidade. Logo o apoio da população urbana a este projeto foi mais acentuado. O projeto Burguês ainda que nascente no Brasil tinha ‘braço forte’ de apoio tanto econômico quanto ideológico. o sistema colonial sofria grandes pressões e o medo das independencias na América e seus regimes republicano das  revoluções e suas influencias como as conjurações e revoltas levaram a independência ser tratada de caráter mais emergencial. A ordem burguesa não deveria promover a independência e as ‘camadas populares com na França’ não poderia estar dentro do processo. Não é a toa que a ‘Casa de Bragança’ promoveu o ‘desquite amigável’ (como diria Oliveira Lima) com suas conseqüências é claro. Com isso deu-se continuidade as características da vida colonial. Juridicamente estava livre, mais estruturalmente continuava a ‘mesma’. Diante deste contexto veremos com se deu este processo e suas implicações.

Bandeira do Brasil Imperial simbolo necessario para construção de uma identidade nacional

Em 1822 o Brasil se torna independente, embora não tivesse ainda uma unidade nacional. D. Pedro I busca através de certa ‘diplomacia’  e ‘acordos’, trazer as capitanias para aderirem seu objetivo de um Brasil unificado, tendo em vista que o Brasil era um mosaico de capitanias que tinham interesses diferentes. A figura do Imperador fez com que as capitanias convergissem para a unificação, devido as propostas formuladas por D. Pedro que representava  continuidade do sistema agrário colonial, mantendo as vantagens desta ordem, frente aos avanços da ordem capitalista. Para D. Pedro a prorrogação deste sistema, era  a prorrogação de seu domínio no Brasil. Tendo em vista que a ordem capitalista tinha como base a republica visando o poder descentralizado,  espaço para exercer o liberalismo e expandir o capitalismo. Conclamar ordem mais forte na colônia para fundar o império era  preservar as vantagens para ambos os lados. Como a estrutura política, religiosa e econômica mudaria com os princípios capitalistas D. Pedro, a igreja e os Senhores se uniram em um projeto de continuidade no projeto senhorial. Para impedir que o projeto burguês lograsse êxito no futuro da colônia.

A independência representou uma mudança política administrativa, embora continuasse com as características desenvolvidas na colônia, ela foi necessária para preservação da ordem e projeto senhorial, uma vez que a ordem burguesa orquestrava seu projeto para por em pratica com grande apoio de fora do Brasil. Ao conclamar os Senhores a aderirem seu projeto D. Pedro mantém a monarquia e o reino sob seu comando e mantém os Senhores a frente da economia do Brasil.  Mantendo a monarquia e a escravidão  os dois grandes legados coloniais para o império.

Embora houvesse pressões inglesas para o fim  de certos laços que beneficiavam a ordem senhorial ocorreram resistências. Não cedendo de imediato as exigências inglesas. O tráfico, foi uma das áreas de maior pressão da Inglaterra que queria sua abolição. Porem  ele não foi abolido de inicio mais as medidas iniciais para sua abolição foram sendo tomadas, como a lei de 1826-31 que proibia o trafico de escravos. D. Pedro procurava beneficiar o projeto conservador, cerceando as exigências inglesas e impedindo como possível. Era uma ‘faca de dois gumes’, pressão inglesa que favorecia a ordem capitalista e pressão da aristocracia para não ceder e continuar fortalecendo a ordem agrária. Ainda assim medidas tomadas ainda por D. João como a abertura dos portos em 1810 e os tratados, ajudaram no desenvolvimento do liberalismo e conseqüentemente o projeto burguês, estas medidas ajudaram infinitamente na inserção da Inglaterra nas decisões políticas brasileiras. o Imperador estava em uma situação delicada tentava reaver as grandes vantagens dadas por seu pai D. João em uma situação embaraçosa e desvantajosa a Inglaterra, esta que resistia duramente as tentativas de correção dos tratados o que desagradava a aristocracia brasileira. Estas  Medidas   representaram o fim do exclusivismo colonial e proporcionou um grande avanço para a burguesia, que via nesta medida grande brecha para seu desenvolvimento. Estas que foram em partes reelaboradas em 1826 com outros tratados com a Inglaterra. a proibição do tráfico foi uma destas novas medidas de 1826 o que  desagradando a elite colonial, e provocou uma crise interna que futuramente entre outros fatores gerou a abdicação de D. Pedro

A Bahia foi invadida por tropas enviadas por Portugal, comandadas por Madeira de Melo em 1822. A cidade de Salvador foi tomada e boa parte da população e militares refugiou-se no recôncavo baiano. A capitania  estava em uma situação intrigante. Ela tinha três caminhos para seguir, embora alguns não parecessem viáveis, porem todos demandava lutas. A Bahia poderia unir-se a Portugal e lutar contra o Brasil, poderia lutar para se tornar um Capitania independente E poderia se unir ao Brasil. Unir-se a Portugal representava volta aos laços coloniais este caminho foi logo deixado para trás pois desagradava as duas ordens. Poderia torna-se independente que demandaria muitos recursos o que a capitania não tinha para investir em guerras( o que agradaria a ordem burguesa) e o caminho adotado que foi aderir o projeto brasileiro, este projeto que agradava a grande elite agrária e conservadora, pois representava a continuação de seus poderes. D. Pedro reconhecendo a importância do momento, e dos caminhos possíveis de serem seguidos, enviou tropas de apoio a resistência baiana que se situava nas vilas do recôncavo. A Capitania da Bahia foi um dos poucos lugares a guerrear contra Portugal, visto que a independência se deu por vias diplomáticas, o que não apagar as mortes e lutas enfrentadas pelas tropas. Entraram para história figuras que viraram mártires e símbolos destas lutas como a Abadessa Sóror  Joana Angélica, Maria Quitéria, Corneteiro Lopes. No famoso de 2 de julho de 1823 um quase um ano depois da independencia do Brasil á  Bahia se torna livre das tropas lusitanas.

O povo comemorando a independencia

Embora houvessem caminhos a serem seguidos na capitania da Bahia havia dois projetos para o pós-independencia. O projeto senhorial agrário conservador que buscava a permanência das antigas relações, sem grandes mudanças estruturais.  Para garantir os seus domínios e suas vantagens da sociedade colonial. O projeto burguês moderno e liberal buscava o desenvolvimento urbano, comercial, e das relações capitalista. Trazia com ele a modernização da capitania com medidas como  abertura do comercio, fim da escravidão criação de centros de estudos.  Pretendia a descontinuidade da hegemonia senhorial que limitava seu crescimento. Os dois projetos em sua essência eram antagônicos. Pois  o poder senhorial limitava o burguês. O avanço burguês minava o senhorial.

A capitania aceitando o apoio ‘nacional’ logo deveria seguir a organização que D. Pedro propôs para o Brasil. O projeto Nacional de D. Pedro era justamente da continuidade, ou seja, de perpetuação do poder senhorial como basilar da sociedade, com o prosseguimento da escravidão, latifúndio e dos privilégios aos grandes proprietários de terras.  Conferindo a esta ordem certo domínio das relações econômicas e sociais. Mantendo a principal atividade do Brasil a agro-exportação. O projeto urbano e liberal pautado na modernização embora não fosse o adotado para a capitania da Bahia como principal, ele teve suas vantagens com a certa abertura comercial que D. Pedro concedeu devida as pressões externas inglesas. O governo de D. Pedro ao mesmo tempo em que tentava agradar a aristocracia rural com a continuação de seus privilégios queria agradar os liberais burgueses com medidas administrativas a fim de incentivar o comercio. Algo que causará o descontentamento de ambos os lados.

Independente do projeto para o pós-independencia na Bahia algo que era comum nos dois era o afastamento das camadas populares do centro das decisões, as ‘classes perigosas’ tão temidas desde a revolução haitiana, e conjuração baiana deveriam estar fora das tomadas de decisões na construção de uma sociedade livre das dominações portuguesas.  Elas deveriam estar prontas para servir na sociedade organizada de acordo com o projeto implantado na Capitania.

Neste quadro observamos um negro provavelmente ferido, indicando a participação popular na guerra, mesmo sendo temida era necessaria

Este texto procurar iniciar as discussões sobre um assunto tão abordado, buscando trazer a tona elementos novos que contribuam com o enriquecimento da analise historiográfica.

Questionamentos :

Através da analise da situação da Capitania da Bahia e do Brasil o que poderíamos ver de semelhança com a situação da Europa enquanto saída da estrutura feudal e o advento do comercio. Tendo em vista as relações econômicas e de trabalho?

Provocações:

Você acredita que se as pessoas conhecessem a real historia da independência do Brasil e Bahia teria tanto entusiasmo nos dias comemorativos?

Por Tiago Ferreira

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8 Comentários

  1. eudesamigo said,

    5 de junho de 2010 às 22:19

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

  2. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 21:08

    Veja as orientações dadas pelo professor Alfredo acerca da organização do texto. Embora você tenha feito sua metodologia, falta aperfeiçoar se contexto, explicar sobre a sociedade da época que você pesquisa. Além disso, é necessário garantir a interatividade em relaçã aos trabelhos de seus colegas. Sugiro que você veja as normas da ABNT em relação aos trabalhos científicos. Trabalhe em cima de sua metodologia. Seu texto está sem desenvolvimento e conclusão.

  3. irisrai said,

    22 de junho de 2010 às 21:20

    Muito interessante o seu tema e muitissimo importante para todos nos Enquanto o Brasil era colônia de Portugal, o Brasil enfrentou com bravura e venceu os piratas, os franceses e os holandeses. Ocorreram muitas lutas internas e muitos perderam a sua vida para tentar tornar seu país livre e independente de Portugal.

    ÍRIS ROCHA

  4. 22 de junho de 2010 às 22:34

    O texto apresentado por tiago ferreira nos traz a possibilidade de vislumbrar os diversos interesses e projetos presentes no processo de independencia da bahia. POSTADO POR GERSON SILVA.

  5. roneco2009 said,

    28 de junho de 2010 às 6:15

    Quando a coroa portuguesa vem para o Brasil ela quer agora desenvolver a economia do Brasil então ela abre os postos para poder comercializar com outros países, o que antes não ocorria.

    Parabens cara, muito bom seu texto

    Ronaldo Coelho

  6. tiagorangel said,

    28 de junho de 2010 às 16:47

    A abordagem do colega mostra todo o desenvolver dos acontecimentos de fizeram parte do processo de independência no estado da Bahia.
    Citando o meu tema que é a conjuração baiana e a revolta haitiana como temores dos acontecimentos, ele monstra o antes e o como aconteceu os acontecimentos que levaram a Bahia a se emancipar do estado Português.

  7. 28 de junho de 2010 às 17:28

    O tema estudado pelo colega requer muitas leituras e base histórica dos fatos para perceber o que ocorreu naquela sociedade de altas complexidades sociais, além da Bahia está envolvido no processo de emancipação do Brasil, que na realidade essa explicação histórica só se da através de várias leituras e explicações através de diversos segmentos de linhas metodológicas e o colega utiliza de um método bastante eficaz no estudo.
    Por, Adenilton Lopes.

  8. 29 de junho de 2010 às 9:23

    Galera preciso que releiam pois sofreu consideraveis mudanças, e participem valeu.


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