A Revolta dos Malês

  Historia Social

Cristiane Querino

Tema:

As praticas  religiosas como estratégias de resistência, e a religiosidade como fator importante para eclosão da Revolta dos Malês

 Metodologia

A  historia social busca formular problemas históricos quanto ao comportamento e as relações entre os diversos grupos sociais. Analisa as estruturas a partir das idéias que vão institucionalizar uma mentalidade ligada ao comportamento dos diversos grupos da sociedade. A partir dessa abordagem historiográfica será analisado aqui um estudo sobre um dos principais movimentos negros da historia do Brasil. Destacando a instituição igreja, a estrutura escravidão e as principais categorias envolvidas no motim de 1835 na Bahia.  

Introdução

O trabalho aqui desenvolvido tem por finalidade inserir no contexto histórico a presença escrava na sociedade brasileira como sujeito atuante nos acontecimentos da época. Para isso é necessário buscar em historiadores e pesquisadores relatos sobre esses eventos, e qual o papel desses negros como personagem central de uma luta marcada pela resistência. Diante disso o sistema escravista surge não só como uma instituição marcada pela presença heróica dos senhores de engenhos, e sim com a eclosão de um movimento liderado por escravos negros e libertos adeptos do islamismo. Uma insurreição que vai abalar a estrutura social e religiosa da Bahia e especificamente Salvador no século XIX.

O processo de escravidão

Antes de entendermos a essência e as principais causas de uma das mais importantes revoltas escravas do século XIX na Bahia, é preciso analisar a escravidão como uma condição imposta ao ser humano abordando o caráter religioso, social e cultural de cada período.

O Egito, Grécia e Roma são exemplos de civilizações que construíram suas pirâmides sociais através do trabalho escravo. Esses escravos eram conseguidos de formas variadas como através de guerras por domínio territorial, como pagamento de dividas ou quando homens pobres se vendiam como escravos como forma de sobrevivência. O Egito e Roma, por exemplo, teve nas guerras uma forma significativa de conseguir escravos.

A expansão do Islã

No século  VIII IX e X o mundo islâmico tinha se tornado herdeiro de uma  longa tradição de escravidão, que teve no Continente africano seu maior aliado na incorporação desses escravos negros as diversas sociedades. Antes de  1450, o mundo islâmico era praticamente o único eixo de influência externa na economia política da África. Inicialmente os escravos eram prisioneiros capturados nas guerras santas que  expandiram o islã  da Arábia pelo Norte da África. A presença muçulmana em parte da África contribuiu para a transformação das estruturas sociais e políticas em determinada faixa territorial. Territórios como a Costa Oriental onde essa presença muçulmana trouxe uma mudança significativa para  personalidade políticas e ate mesmo comerciantes. E isso graça a conversão ao islã, esses indivíduos se adaptaram a uma nova ideologia e a um novo comportamento social.

O comercio externo era não apenas uma fonte de valiosas importações, mas igualmente ajudava a difundir tais instituições como a escravidão. Os muçulmanos assumiam cada vez mais um importante papel na política, na educação e em especial no comercio. A importância nesses papeis fortaleceu cada vez mais o escravismo que era justificado pelos governantes africanos em uma perspectiva islâmica. O islã havia se tornado uma grande influencia no interior  de muitos estados africanos. Estados como Gana, Mali, Songai, Canem,Senar e Adal tiveram uma participação significava  no trafico de escravos juntamente com a expansão do islã  na África subsaariana por exemplo. As atitudes muçulmanas em relação á escravidão eram internalizadas no contexto africano.

A narrativa religiosa

A religião é uma expressão que se manifesta através das atitudes e comportamentos dos indivíduos. Esse sistema de crença estabelece uma interação com o sagrado, é a força que impulsiona as mais diversas manifestações capazes de transformar e redirecionar uma sociedade. As diversas religiões do mundo contem elementos diferentes na sua pratica e crença. Porem algo em comum aproxima uma da outra. O elemento fé, as representações, as simbologias e o sistema de crença no sobrenatural, geralmente envolvendo divindades.

O islã é uma religião que surgiu na Península Arábica no século VII baseado nos ensinamentos do profeta Maomé e numa escrita sagrada, o alcorão.   Na visão muçulmana, o Islão surgiu desde a criação do homem, ou seja, desde Adão, sendo este o primeiro profeta dentre inúmeros outros, para diversos povos, sendo o último deles Maomé. A mensagem do Islão caracteriza-se pela sua simplicidade: para atingir a salvação, basta acreditar num único Deus, rezar cinco vezes por dia voltado para Meca, submeter-se ao jejum anual no mês do Ramadão, pagar dádivas rituais e efectuar, se possível, uma peregrinação à cidade de Meca. Sendo assim as praticas regiosas na rebeliao  de 1835 torna-se o principal elemento de resistencia para a eclosao da revolta.

Escravos e rebeliões

Estudar e analisar os acontecimentos no Brasil numa perspectiva historiográfica, tomando como base historiadores que ao dialogar esses acontecimentos, vão expor em seus relatos assuntos ligados a uma época marcada pelos Rumores de possíveis rebeliões escravas, mas ao mesmo tempo discutir na História o papel desses escravos, mestiços, mulatos no processo de resistência ao sistema escravista e a imposição do catolicismo. Esses acontecimentos vão eclodir em meados do século XIX em cidades como Salvador, onde será palco de episódios marcados por escravos valentes que vão aterrorizar moradores brancos diante de uma possível rebelião escrava. Embora é importante pontuar que há um elemento racial. Os haussas   e os nagôs, que na África eram senhores de escravos e de terras, não podiam aceitar para si próprios o estigma da escravidão.

 Examinar o escravo como sujeito diante de uma sociedade escravista dominada pelos senhores de engenhos e ao mesmo tempo como parte integrante de um processo, onde é importante analisar o posicionamento desses indivíduos que, negros e pardos, livres ou escravos, frente a esses movimentos, ou seja, como se comportavam perante um discurso de libertação e negociação , onde muitas vezes esses escravos que, sobretudo crioulos e pardos não testemunhava determinados acontecimentos de forma passiva. Embora é importante lembrar que esses escravos e libertos adeptos ao islã, são na maioria sacerdotes ou mestres-escola, ressaltando que o ensino mulçumano tem caráter religioso e a educação para o mulçumano é algo prioritário, pois, como o Alcorão livro sagrado para os seus seguidores, era todo escrito em Árabe, havia necessidade de aprofundar a leitura e a escrita.  

Estratégias para revolta

Pensar personagens que vão surgir no desenrolar dessa época com sua importância e vigor, papel como o de Luiza Mahin, uma mulher negra, livre, da nação nagô pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã, teve uma participação significativa na revolta dos malês, sua casa tornou-se um dos pontos mais estratégicos de revoltas negras em Salvador.

Mesmo com todo cuidado e sigilo o medo se colocava diante da ameaça de descoberta. Como por exemplo, um líder que, em meio uma época onde quaisquer rumores e ameaça de levantes escravos cominava a pena e a prisão, como reagir e se defender e qual arma utilizar. O elemento religioso surge como o principal papel preponderante nesta revolta. Evidencias relatada por autoridades da época de que a insurreição estava tramada de muito tempo. Existiam mestres que davam lições e tratavam de organizar o movimento na qual entravam muitos forros africanos e até negros ricos. Os revoltosos só se falavam em língua ioruba ou nagô, chamando-se por seus verdadeiros nomes e não pelos nomes cristãos que lhes tinham sido atribuídos. Uma forma de manter em sigilo as conversas sobre a revolta. Outro ponto importante e significativo é que a roupa da revolta era a mesma vestimenta litúrgica, gabão branco com cinto vermelho, camisa também vermelha, barrete azul e turbante branco, calçados brancos e também as proteções mágicas, amuletos etc. Tambem  trechos dos alcorao foram encontrados com revoltosos presos apos o fim do levantes. E isso reforça cada vez mais o caráter religioso da revolta.

Outro ponto importante é o fato de que a eclosão foi estrategicamente marcada para os dias em que toda a população de Salvador vai à igreja do Bonfim, deixando a cidade quase vazia. Facilitando a dominação e os ataques aos principais pontos da cidade.

A revolta de 1835

O movimento conhecido como revolta dos malês, assim chamados os negros muçulmanos que o organizaram. A expressão malê  vem de imalê, que na língua ioruba significa mulçumano. O numero de revoltosos foi de aproximadamente de 1500, entre escravos e libertos. Uma insurreição que foi estrategicamente planejada para eclodir na noite de 24 a 25 de janeiro do mesmo ano. Essa historia começa na África, onde em decorrência de conflitos políticos e étnicos relacionados a expansão do islamismo gerou uma forte escravização de vitimas desses conflitos que eram trazidos para o Brasil como escravo e especificamente para a Bahia. Mas ao anoitecer do dia 24, o projeto é denunciado por  uma nagô liberta. É importante ressaltar que os africanos iam formulando e aperfeiçoando suas idéias de liberdade e de ataque á escravidão na Bahia de forma coletiva entre escravos e libertos, e essas idéias muitas vezes eram compartilhadas com  negros  que mantinham forte ligação com o senhor. Atraves desse convivio diario e laços amigaveis entre esses negros que a revolta foi descoberta e o projeto de libertação  interrompido, e como conseqüência a morte e prisão de vários revoltosos.

Considerações finais.

Diante da analise feita e dos assuntos aqui estudados sobre uma época marcada por conflitos e rebeliões, resta-nos concluir que a revolta de 1835 teve como principal elemento para a eclosão do movimento a religião, uma manifestação que foi capaz de motivar e impulsionar uma das rebeliões escravas mais importantes da Bahia.

Referências:

LOVEJOY, Paul, E. A escravidão na África. Uma historia de suas transformações. Rio de Janeiro 2002. Pg.59 a 80.

BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo, Pg. 149 a 218.

 Provocações:

  1. Alguns historiadores discutem a revolta dos malês como um evento movido pelo o ódio do mulçumano, manifestado pelo desejo de apoderar-se  das terras não era para as trabalhar mas para nelas fazerem trabalhar os negros crioulos e os mulatos.

    2.  Ate que ponto a ideologia religiosa pode institucionalizar a mentalidade de grupos sociais sendo capaz de impulsionar uma revolta como a dos Malês.

11 Comentários

  1. eudesamigo said,

    5 de junho de 2010 às 22:31

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

    • irisrai said,

      11 de junho de 2010 às 21:14

      oi eudes eu já coloquei algo lá..mas me informe onde é que eu coloco a metodologia,ou seja sobre a minha corente historiográfica?

  2. 22 de junho de 2010 às 2:32

    Sem duvida , a escravidao foi uma condiçao imposta ao ser humano, nesse caso ao negro , em que na revolta dos malês o fundamento maior era a religiao islamica , na qual pregava a justiça , perante Alá, baseado no alcorao.

  3. ucsalvane23 said,

    22 de junho de 2010 às 19:36

    O seu tema é interessante, e vc nos fez lembrar que a escravidão não foi algo exclusivo do período moderno, que já existia deis do Egito e Grécia e Roma.
    Elivane

  4. irisrai said,

    22 de junho de 2010 às 21:05

    é realmesnte a Revolta dos Malês,foi um movimento de considerável força organizativa e exemplo vivo de inconformismo e da coragem dos negros cativos que, submetidos a um regime de refinada crueldade e altamente repressivo, souberam buscar tenazmente o caminho da liberdade.

    ÍRIS ROCHA

  5. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 21:18

    Veja as orientações dadas pelo professor Alfredo acerca da organização do texto. Embora você tenha feito sua metodologia, falta aperfeiçoar seu
    contexto, explicar sobre a sociedade da época que você pesquisa. Além disso, é necessário garantir a interatividade em relaçã aos trabelhos de seus colegas. Sugiro que você veja as normas da ABNT em relação aos trabalhos científicos. Trabalhe em cima de sua metodologia. Seu texto está sem desenvolvimento e conclusão.

  6. cosma2 said,

    24 de junho de 2010 às 20:44

    Gostei do seu trabalho , o recorte que fez em relação a religião Mulçumana e a importancia no contexto desta revolta, e o que representou dentro do bojos da revoluções.

  7. joanan13 said,

    25 de junho de 2010 às 20:39

    Ola,
    Gostei muito da organização do seu trabalho.
    discutir o tema malê é muito gratificante, principalmente quando compreendemos a conjuntura da época no tocante a escravidão, religiões, monarquismo, e todo tipo de elementos sociais que se apresentavam na sociedade no século XIX.
    A organização islãmica audaciosamente investiu numa revolta urbana, começando pela capital em direção ao interior. E com toda a estrutura de segurança que havia no Brasil com ordem social, foi-lhes possível uma comunicação de preparação que impreciona.

    Joanan

  8. 27 de junho de 2010 às 14:44

    Olá Cris, a Líder!!!

    Gostei muito do seu trabalho, abordou bem os elementos sociais da época e buscou alguns exemplos interessantes de escravidão como a egípcia e a romana. Parabéns!!!

    Danilo Santana.

  9. ucsalvane23 said,

    27 de junho de 2010 às 17:59

    elivane:
    Poso estar errada, mas penso q por trais da religião existem outros interesses.

  10. roneco2009 said,

    28 de junho de 2010 às 5:37

    Apesar do grande número de escravos envolvidosm a superioridade militar da guarda nacional garantiu a vitória das tropas oficiais e o movimento foi logo reprimitivo pelo governo. Alguns dos principais líderes dos malês foram presos ou até mesmo torturados ou mandados para fora do Brasil.

    Excelente seu texto Cris, parabéns.

    Comentário de Ronaldo Coelho


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