A construção identitária negra no início do século XIX

CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ÉTNICA NA SOCIEDADE BAIANA

Patrícia Quele do Rosário Cabral

Metodologia adotada para o estudo: Historia Social.

Pautado numa abordagem histórico social, o presente trabalho elenca as formas e mecanismos de organização social, que fazem parte da estrutura social vivenciadas pelos indivíduos inseridos em tal contexto. Apresentando como principio de suas analises a formulação de problemas históricos, referentes a comportamento, interação e estruturação dos grupos sociais dentro do processo de construção ideológica que permeará a institucionalização e desenvolvimento dos mesmos.

A historia social define como objeto de estudo e domínio as relações de oposição entre o individual e o coletivo, problematizando questões especificas quanto ao papel da ação humana na historia.

Resumo:

O presente trabalho pretende enfatizar a discussão no campo de estudo étnico, sob a perspectiva social de entendimento do imaginário. Enfatizando e destacando perspectivas e estratégias desenvolvidas pelas populações negra e mestiça – inseridas nesse contexto escravista -, para reafirmar o compromisso com as suas origens culturais e ancestrais diversificada em sua africanidade, neste cenário.

Este espaço discutirá o processo de construção identitária da população negra, na cidade de Salvador, Bahia, no período que se inicia o século XIX.

Palavras-chave: Identidade, étnica, etnia, escravidão.

Introdução:

O inicio do século XIX, e mais especificamente as primeiras décadas deste, pode ser considerado como período de grande conturbação. Conseqüência de uma serie de fatores associados às lutas separatistas de independência da Bahia, que afetariam significativamente a estruturação política, econômica e social do cenário baiano.

Inseridos na realidade brasileira escravista e socialmente categorizada, a população africana e seus descendentes brasileiros, sempre foram entendidos como sendo um simples componente das forças produtivas, sem participação como ser, uma vez que se exclui o escravo negro até como força produtiva, pois nesta estão contidos os homens com os seus hábitos de trabalho, colocando-os ao nível apenas de instrumento de produção.

Por conseqüência esta mesma população negra, componente de transformação e influencia – direta e/ou indireta, reconhecida ou não – na dinâmica histórica e social do sistema desenvolve e engendra mecanismos de auto identificação e unidade, com base na experiência cotidiana.

Apresentação

Escravidão

Os anos de escravidão atestam a resistência e a organização dos grupos negros, a fim de resguardar e preservar sua cultura ate então essencialmente africana e posteriormente um elemento oriundo de uma transculturalidade dentro deste contexto.

Uma vez, que o trabalho escravo, é o sustentáculo de um sistema econômico e social, se mantém imutável e sem modificar a estrutura social da cidade composta por uma população, de grande maioria negra, escrava, que continuava a ocupar os estratos inferiores da sociedade. Entretanto, para manter a ordem vigente, sem alteração nas posições ocupadas, e impossibilitar a mobilidade social dos africanos e afro-brasileiros, tornava-se indispensável para os grupos dominantes, afirmar a supremacia dos brancos e a inferioridade dos negros. Neste momento a cor da pele, é um elemento preeminente, e os termos raciais indicavam a posição de status dos indivíduos; a distinção social que se estabelecia, passa a ser assumida pela cor da tez, ou seja, outros mecanismos são projetados para a manutenção da situação social existente.

Posto isto, pode-se afirmar que a organização da população negra está diretamente vinculada à  historia da escravidão no Brasil. Notadamente a África Ocidental, será o local de origem de um grande numero de cativos de diferentes etnias. As diferenças étnicas entre os escravos dificultaram, porem não impediu as relações entre eles, bem como a articulação de ferramentas e estratégias de resistência.

Etnia

Representa a consciência de um grupo de pessoas que se diferencia dos outros, em função de aspectos culturais, históricos, lingüísticos, dentre outros. A etnia é, no entanto, uma noção imprecisa na definição de seus conteúdos e de seus limites, instável, e seu sentido evoluiu com o passar do tempo.

Ao longo do período de trafico de negros cativos para a Bahia, um processo de reorientação e renorteamento dos critérios de identificação parece ter alicerçado os contatos entre os africanos e os demais grupos, culturalmente estranhos sob a sua perspectiva.

A adequação entre as formas de analise dos diferentes grupos africanos e os critérios de classificação e quantificação, inconscientemente emprestada pelo sistema escravista no quais estavam inseridos, fomentou e visibilizou a necessidade que os próprios grupos fossem adquirindo sentido em si mesmo, criando suas próprias regras e definindo, no âmbito da experiência social a orientação a cerca de inserção ou exclusão dos seus membros.

Etnia negra:

A etnia negra pode ser descrita como uma expressão de simbologias, tradições e significados próprios, constituídos através de um referencial totalmente ligado conceitos formulados sob uma visão africana. No contexto em questão, foi através do processo histórico de formação da sociedade baiana, e mais especificamente Soteropolitana, miscigenada a outras culturas também formadoras do conjunto nacional, bem como subjugada e manipulada pela ideologia de uma elite dominante.

Elaborando assim, dois caminhos imbricados, o da não aceitação da pluralidade individual e o da aceitação da mesma, que por sua vez assegura uma espécie de harmonia social. Assim os grupos étnicos, no lugar da raça – legado da visão positivista de uma perspectiva biológica, sustentado oficialmente – surgem como elemento definidor da identidade de grupos humanos, por dar conta de espécies de aglutinações culturais verificadas entre os seres, através de razoes e dinâmicas que extrapolam a concentração de coloração epidérmica, atingindo o homem, enquanto individuo diversificado e essencialmente cultural.

A constituição étnica esta totalmente ligada à postura de afirmação social, de uma representação baseada fundamentalmente na interação. Ela encadeia pensamento e linguagem o que permite a compreensão do mundo e assimilação das relações no âmbito do imaginário da população negra. Desse modo a construção da étnicidade tem a auto-afirmação como sua base mais solidificada.

Dentro das senzalas, bem como fora delas, o negro, enquanto sujeito categoricamente excluído e sem referenciais de unidade que os integre à sociedade em questão, projeta a si próprio nessas identidades culturais, à medida que internaliza tais significados e valores, alinhando seus sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupa no mundo social e cultural em que vive.

Identidade:

Pode-se considerar que identidade, é um entrelaçamento de culturas constituídas e advindas das relações sociais num dado tipo de formação social, visto que toda e qualquer identidade é um elemento construído.

A principal questão, na verdade, diz respeito, a partir de que, por quem e para que isso acontece. As grandes variedades de formações étnicas, as diferentes condições naturais, de início, produziram as peculiaridades identitárias e culturais historicamente verificadas. Sendo assim, a formação de identidade de uma sociedade ou grupo se dá por uma série de micro-relações de poder, já que, a construção social da identidade sempre ocorre em um contexto marcado por relações de poder, e também de como o grupo se enxergam no seu espaço, bem como o desenrolar de sua relação cultural com o tempo.

No caso do Brasil colonial, a proposta da formação da identidade nacional, passara pela eliminação das diversidades étnicas, seguindo o modelo de construção do Estado-Nação dos países europeus. A sociedade baiana seguirá o mesmo indicador, visto que são os sujeitos/agentes da identidade, os encarregados de construir a identidade coletiva, e para que essa identidade seja construída, são em grande medida os determinantes e determinadores do conteúdo simbólico dessa identidade, assim como de seu significado para aqueles que com ela se identificam ou dela se excluem. Podemos então dizer que as identidades, enquanto construções sociais podem legitimar a ação dos atores sociais, bem como podem racionalizar um projeto político do dominante. Ou seja, dependendo de como um dado grupo ou sociedade concebe o tempo e o espaço, sejam enquanto objetos a terem uma utilidade ou finalidade, seja com uma concepção totalmente destoada de qualquer objetividade, esse grupo ou sociedade vai construir sua identidade cultural.

Ainda problematizando a mesma questão, sob a utilização de fontes a cerca de nações e identificações destas, na Bahia, descreve-se que os sujeitos passam a ser permeados, por praticas pautadoras de suas articulações, de pensamentos e ações, que permite a multiplicação da variedade de signos, nos quais são encontradas as inúmeras possibilidades de conexões e combinações para formação de novos arranjos identitários, tornando os sujeitos agentes, representantes, produtores e proliferadores de novos signos de identidade, os quais vão estimulando incessantemente futuras recombinações de identidades.

Assim os sujeitos podem fazer uso destas culturas e/ou conjuntos de características, estas dotadas de alta mobilidade, para estabelecer contato com outras culturas e, através dessa experiência, possibilitar a incorporação de novas faces culturais em suas vidas e em seus meios de convívio.

Identidade étnica “negra”

A identidade étnica é uma construção social de caráter contingente e que difere de um contexto para outro, uma vez, que as fronteiras e os marcadores étnicos não são imutáveis no tempo e no espaço. Se a identidade étnica é entendida como essencial, concebida como um processo, afetado pela história e pelas circunstâncias contemporâneas e tanto pela dinâmica local quanto pela global.

A identidade étnica pode ser considerada como um recurso cujo poder, depende do contexto nacional e/ou regional – é, portanto, sua criação esta diretamente ligada à disseminação de símbolos que, estão associados a diversas identidades locais e características individuais. Esses símbolos sugerem que vale a pena ser etnicamente diferente causando a impressão de homogeneidade cultural, mesmo que o uso destes ditos símbolos se apresente como possibilidades de o individuo se mostrar como diferente. Esta perspectiva torna-se interessante no momento em que oferece a estes, a oportunidade de se identificarem com “subculturas” e outras formas espetaculares de identificação, desde que possam mesclar e/ou copiar os estilos simbolizadores do grupo em questão, podendo assim falar em identidade étnica sem que se pertença a uma cultura étnica separada e reconhecivelmente constituída.

Os sentimentos de perda de identidade original são compensados pela procura ou criação de novos contextos e retóricas identitárias imbricadas, entrelaçadas e miscigenadas.

“… africanos reviviam simbolicamente suas antigas tradições culturais e consolidavam na pratica novas identidades étnicas (REIS, 1997,26)”.  A recriação das identidades africanas, no cenário soteropolitano, constituído de negros escravizados, oriundos dos mais distintos componentes africanos, representados pelos principais grupos relacionados, os Sudaneses, nesse grupo estaria os nagôs (iorubas), jejes (ewe ou fon) e os fanti-achanti, dentre outros, ocorre no seio de sistemas multirraciais e multiétnicos, estruturados sob bases hierarquicamente escravistas, categorizada na cor da pele e na origem; desenvolvendo assim, novas culturalidades étnicas, imbuídas e compostas de elementos etnicamente diversos.

Sob esse aspecto, a nova “nações” africanas ou a etnia “negra” expressavam e reproduziam igualmente os mecanismos de identidade dos africanos, bem como dos seus descendentes, que por sua vez utilizam-se também dos critérios da cor da pele e da origem para organizarem seus sistemas de diferenciação, em contraponto aos demais grupos deste imenso sistema.

Construção de identidade e seus aspectos

A construção da identidade negra por muito esteve associada a usos específicos do corpo (negro), e isso a distingue da maioria das outras identidades étnicas. A aparência “negra” e a exibição de maneirismos “negros” têm sido associadas a certos comportamentos, empregos, posições sociais e herança cultural. Por outro lado, a aparência física, o porte e os gestos também têm sido o meio pelo quais os negros, como população racializada, reconhecem a si mesmos e, na tentativa de reverter o estigma associado à negritude, tentam adquirir status e recuperar a dignidade.

Identidades enquanto:

A identidade negra conforme o contexto foi definida em relação a sistemas específicos e a hierarquias globais de poder, legitimados em termos raciais e que legitimam os termos raciais.

Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais.

Identidade de resistência: criada por atores que se encontram em posições /condições desvalorizadas ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade ao explicar o surgimento da política da identidade.

Identidade de projeto: quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social.

Identidade de negação: Associação entre todas as identificações e/ou fragmentos de identidade que o indivíduo reprimi em si mesmo por serem indesejáveis, irreversíveis e irreconciliáveis, ou pelo qual indivíduos atípicos e minorias sociais são entendidas como “diferentes”, sob uma ótica dominadora.

Todos esses materiais são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em torno de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo/espaço.

Considerações finais:

Neste espaço busquei destacar nível de deformação da visão que se tem do escravo (neste contexto, o escravo negro) através da ideologia que uma herança historiográfica estabeleceu e foi assimilada ao longo do tempo. Enfatizando o fato de ser o negro escravizado, analisado através de estereótipos que, no transcurso da nossa formação social e histórica, contaminaram o imaginário e interferiram diretamente no processo de construções identitarias.

A construção de identidades étnicas se dá pela necessidade do homem de conviver em grupos sociais. Sendo esta fruto da autoconsciência de especificidades culturais, e do reconhecimento do outro.

Referências:

NETO, Edgard Ferreira. História e Etnia. In: CARDOSO, Ciro F. e VAINFAS, Ronaldo (org.). Domínios da História: Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 313-328.

REIS, João Jose. (1997). Identidade e Diversidade Étnicas nas Irmandades Negras no Tempo da Escravidão”. Revista Tempo,Rio de Janeiro,VoI.2, n 3, p.7-33.

OLIVEIRA, Maria Inês Cortes. (1997). Viver e morrer no meio dos seus Nações e comunidades africanas na Bahia do século XIX. R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 1 7 4 – 1 9 3, D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6

SANSONE, LÍVIO. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil. Salvador/Rio de Janeiro: Edufba/Pallas, 2004.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil – Identidade

Nacional versus Identidade Negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

______. Superando o racismo na escola. Brasília-DF: Ministério da Educação,

Secretaria de Educação Fundamental, 2001.

Provocações:

A elaboração desses conceitos teve início no final do século XIX, com a construção da teoria das diferenças inatas e permanentes entre bancos e negros. Essas elaborações influenciaram de modo marcante a compreensão das ciências sociais sobre a questão racial?

As marcas do corpo ou caracteres físicos demarcam as distâncias e os locais ocupados no prestígio social. Por meio de um traço “objetivo” — caracteres físicos —, indica-se o caminho para construções arbitrárias, baseadas na ideologia dominante, as quais passam a atribuir significados que desqualificam a identidade da população negra.

Autor desconhecido

” Negro sem face…”

O que te parece ???

7 Comentários

  1. eudesamigo said,

    5 de junho de 2010 às 22:30

    Oi, falta postar seu texto. Clique em editar e escreva seu artigo. Não se esqueça de garantir os aspectos metodológicos essenciais para a formatação de um artigo cientifico.

  2. 22 de junho de 2010 às 2:45

    Paty, seu tema é super interessante , pois relata, mostra a construçao da identidade etnica, que ate os dias atuais é muito estuda e questionada . Muito legal a sua abordagem ate pq mescla a estetica e escravidao.

  3. eudesamigo said,

    22 de junho de 2010 às 19:52

    Vejas as orientações dadas pelo professor Alfredo acercada organização do texto. Embora vc tenha feito sua metodologia, falta contexto, explicar sobre a sociedade da época que você pesquisa. Além disso é necessário garantir a interatividade em relaçã aos trabelhos de seus colegas.Sugiro que você veja as normas da ABNTem relação aos trabalhos científicos. Trabalhe em cima de sua metodologia. Seu etxto está sem desenvolvimento e conclusão.A apresentação de seu texto está “truncado”, seja mais objetiva e clara em suas informações.

  4. cata22 said,

    27 de junho de 2010 às 14:52

    Olá paty,

    Gostei muito do seu tema. Achei que vc examina a sociedade da época por bastante elementos.Até então estou achando bom o seu trabalho.

  5. joanan13 said,

    28 de junho de 2010 às 0:14

    ola,
    gostei muito do seu tema aproveite-o para a monografia. vc destaca elementos q sao cruciais para a boa compreensao.
    ate mais!

    Joanan

  6. kmmiloka said,

    30 de junho de 2010 às 19:36

    Parabéns!!!
    Muito bom o seu trabalho!
    Tema muito interessante… Que nos remete a uma analise do que ainda hoje se vê em nossa sociedade, quanto a identidade (muitas vezes distorcida) do homem negro.

  7. jef04 said,

    2 de julho de 2010 às 19:30

    Olá Dona Patricia estava fazendo a leitura do seu trabalho e acho maravilhoso como vc coloca este conceito de identidade,muito bom mesmo.
    Jeferson.


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